Resenha: O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman

Em 05.05.2016   Categoria: Resenhas

o oceano no fim do caminhoQuando terminei de ler O Oceano no Fim do Caminho, me lembrei de outras vezes em que terminei uma leitura e fiquei sem saber direito como falar sobre o que havia acabado de ler. É exatamente desta forma que me sinto agora, encarando uma página em branco e tentando colocar pra fora tudo o que eu penso sobre este livro.

O meu contato com a escrita de Neil Gaiman é bem pequena se formos comparar com a grandiosidade de sua obra. Li apenas um conto, Como Falar com Garotas em Festas, e seu discurso, Faça Boa Arte; além de ter assistido aos seus episódios para Doctor Who. Considero O Oceano no Fim do Caminho como o primeiro contato propriamente dito que eu tive com o autor; e posso dizer que não me arrependo nem um pouco de ter esperado todo este tempo para apreciá-lo.

Meu gosto literário se modifica de acordo com meu amadurecimento pessoal. Já tive a época de não querer largar um livro ruim, apenas pelo prazer de terminar mais um e contabilizar aquele número a mais na quantidade de livros que havia lido. Que bom que essa fase acabou e que agora procuro pela qualidade… Acredito que se eu houvesse lido O Oceano no Fim do Caminho na minha época de quantidade, acabaria por não aproveitá-lo ou compreendê-lo da forma que o fiz agora.

Preciso dizer que, pelo fato de Neil usar muitas analogias e metáforas, hoje, por conseguir compreender melhor e por me deixar pensar e analisar tudo aquilo que leio, consegui me entregar muito mais à leitura. Acredito que no ano passado não teria aproveitado tanto.

Em O Oceano no Fim do Caminho conhecemos um homem, já na sua meia idade, que se encontra na cidadezinha onde passou grande parte da infância ao ir para um velório e que acaba por seguir pela estrada, até chegar à Fazenda Hempstock, tendo um encontro com sua infância, na época em que ele tinha 7 anos.

“Adultos seguem caminhos. Crianças exploram. Os adultos ficam satisfeitos por seguir o mesmo trajeto, centenas de vezes, ou milhares; talvez nunca lhes ocorra pisar fora desses caminhos.”

A infância é o foco do livro, apesar de o personagem, que é também quem narra a história, às vezes fazer alguma comparação sobre o que ele pensaria ou sobre como ele reagiria se aquilo acontecesse alguns anos mais tarde. Você vê um menino de 7 anos que não tem amigos e que prefere viver com a cara nos livros, conhecendo diferentes histórias e inventando e imaginando milhares de cenários em sua cabeça, tendo que encarar alguns desafios quando tudo começa a desandar naquela cidadezinha.

“Algo veio até mim e implorou por amor e auxílio. Contou-me como eu poderia fazer felizes todos os seres iguais a ele. Que são criaturas simples, e tudo o que querem é dinheiro, só dinheiro e nada mais. Pequenos sinais-de-trabalho. Se tivesse pedido, eu teria dado sabedoria, ou paz, total paz…”

Ele se sente responsável, sim, e quer fazer o possível para reverter a situação que acredita ter criado. As Hempstock, principalmente a mais nova, Lettie, é quem faz com que a mente do menino se torne ainda mais criativa. É ela que ensina muito a ele, que se torna sua única amiga e que acredita em tudo que ele diz. É nela que ele confia e é pra ela que ele dá sua mão e promete não soltar em momento algum.

Além disso, Gaiman nos mostrou como o garoto se sentia ao perceber que ele não era tão amado quanto sua irmã naquela família. Ele não era, afinal, o que seu pai tinha esperado de um filho homem: não luta, não joga bola, não se interessa por carros… A ideia de diversão que ele tem é totalmente diferente da que seu pai tinha quando era apenas uma criança de sete anos e eu acredito que isso tenha deixado seu pai um tanto quanto frustrado, preferindo, então, a filha, a princesinha que deveria ser.

“Eu era uma criança normal. O que significa dizer que eu era egoísta e não estava totalmente convencido da existência de coisas que não eram eu, e tinha certeza, uma certeza sólida e inabalável, de que eu era a coisa mais importante da criação. Não havia nada mais importante para mim do que eu.”

É claro que também vemos a menina jogando na cara do irmão o que ela pode fazer e o que ele não pode; deixando o menino acreditar, perceber e saber que ele não era tão amado quanto ela.

Com maestria, em diversos trechos, vemos Gaiman falando sobre como um adulto não costuma acreditar nas palavras de uma criança: muitas vezes fantasiam demais, então por que acreditar?

“Conhecia o suficiente dos adultos para saber que, se lhes dissesse o que tinha acontecido, ninguém acreditaria em mim. Os adultos raramente pareciam acreditar em mim quando eu falava a verdade. Por que acreditariam em algo tão improvável?”

Não, eu realmente não falei muito sobre a história; mas não acredito que seria a forma correta para falar sobre este livro, tão cheio de metáforas e analogias… Cada leitor tomará uma posição; cada um entenderá de uma forma. Duas pessoas nunca fazem a mesma interpretação, assim como não se recordam de um acontecimento da mesma forma (e vemos isso neste livro, está lá, falado de forma maravilhosa pela velha Sra. Hempstock).

O Oceano no Fim do Caminho se tornou um livro que, com certeza, num futuro, vou querer reler. É incrível todas as coisas em que ele nos faz pensar, ou que pelo menos me fez pensar. Recomendo que leia com calma, pensando, interpretando, e tirando todo o ensinamento que você conseguir dele, porque Neil faz isso, mesmo utilizando elementos que não podem ser reais (pelo menos não para um adulto).

O Oceano no Fim do Caminho – The Ocean at the End of the Lane
Páginas: 208 Editora: Intrínseca Nota: ★★★★★


  • Jeh Asato

    Em 05.05.2016

    “Duas pessoas nunca fazem a mesma interpretação, assim como não se recordam de um acontecimento da mesma forma.”
    Babi, amei a resenha e fiquei curiosa pra ler o livro MESMO eu sendo um pouco lenta para analogias e metáforas – tenho que fazer exatamente isso, ler e reler para poder chegar ao âmago do entendimento. Mas como você mesma mencionou, cada pessoa vai ter seu modo de entendimento e não há nenhum impedimento nisso! Queria saber se a narrativa é na visão do senhor ou de algum Hempstock (o velhinho é um Hempstock?). Gosto muito de narrativa em primeira pessoa porque me sinto muito próxima ao narrador e às vezes até imparcial às situações narradas, mas dependendo da premissa a terceira pessoa narrando também fica bom!
    Beijos e obrigada por esclarecer minhas dúvidas quanto ao Nail!
    <3

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  • Jeh Asato

    Em 05.05.2016

    * Nail = Neil
    Hahahahha

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